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Atualizado: 08/02/2014 16:18 | Por Ricardo Brandt - O Estado de S. Paulo, estadao.com.br

Estudo associa seca ao uso maior da Cantareira

Especialista da Unicamp alerta para a possibilidade de se entrar em período histórico de pouca chuva


Estudo associa seca ao uso maior da Cantareira

"Represa Jagauri do sistema Cantareira, Bragança Paulista, enfrenta seca."

CAMPINAS - O aumento do volume máximo de água produzido pelo Sistema Cantareira – que abastece 47% da Grande São Paulo –, a partir de 2004, agravou a situação de esvaziamento de represas, até chegar a um atípico verão sem chuva. Criados em 1974, os reservatórios do Cantareira chegaram ao pior nível (20,3% da capacidade) neste mês.

Um estudo feito pelo especialista em hidrologia Antônio Carlos Zuffo, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), indica que o aumento de produção do sistema desconsiderou períodos históricos de pouca chuva. O Cantareira começou a ser construído com base em um período de poucas precipitações – que durou de 1935 a 1969. Nas duas décadas seguintes, no entanto, o volume de precipitações aumentou e a vazão subiu até 30%. "Com base nesse período de mais chuva, quando foi renovada a outorga, em 2004, elevou-se a capacidade de produção do Cantareira, porque viram que ele chegou a fornecer até 7 mil litros de água por segundo a mais."

Oficialmente, a partir de 2004 a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), que opera o sistema, recebeu da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) autorização para aumentar o volume de produção de 33 mil litros de água por segundo para 36 mil litros.

Risco. Observando as chuvas desde 1910, o estudo da Unicamp indica que o Estado pode ter entrado em um longo período, de 30 a 40 anos, com precipitações abaixo da média dos anos anteriores. Isso vai colocar o Cantareira em colapso, caso não seja redimensionada sua capacidade de produção.

As conclusões do estudo, encomendado para o Consórcio das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, entidade que representa 73 cidades do interior de onde é retirada a água do sistema, foram apresentadas em junho. "Sem novos sistemas, vamos ter de conviver por 10 a 15 anos com os racionamentos, se tivermos entrado em um longo período de seca", afirma Zuffo.

Segundo o professor, estudiosos em hidrologia consideram a existência de dois fenômenos, denominados José e Noé – referências bíblicas aos períodos cíclicos de fartura precedidos pela seca no Egito e ao dilúvio, respectivamente. São fenômenos cíclicos e de longa duração em que fases de precipitações mais elevadas – como nos verões de 1982/83 e 1975/76 – são sucedidas por períodos de seca.

Para o especialista, o Sudeste entrou nesse longo período de baixas precipitações. "O problema é que o clima não obedece a interesse político. O que vão fazer se o Cantareira deixar de produzir os 7 mil litros por segundo a mais da época de mais chuvas?"

O diretor-presidente da ANA, Vicente Andreu, afirma que os cálculos do sistema foram feitos considerando uma margem de risco de 5%. Mas que, sem essa elevação, não teria havido aumento de oferta de água.

Nas propostas para a segunda renovação da outorga, que será assinada neste ano, a Sabesp solicitou que o volume total de água produzida pelo Cantareira para os próximos dez anos suba para 40 mil litros por segundo. "Se essa vazão for autorizada, terão vendido o ovo sem saber se a galinha vai botá-lo. Quem garante que vai chover nessa proporção?", indaga Zuffo.

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