Testemunhas do massacre ouvidas pelo Estado incluem um novo agente nesse massacre ignorado pelo resto do País. O Exército também participou da repressão, com apoio e logística, no dia de São Bonifácio. Até hoje, só a Polícia Militar do Pará era responsabilizada pelo massacre. 'O Exército acampou do lado direito de quem sai de Nova Marabá. A polícia ficou do outro lado, em São Félix', relata o mecânico Luiz Pereira do Nascimento, de 67 anos. 'Agora, faço questão de ir fotografar onde a gente cantou o hino.'

Localizado em Novo Horizonte, bairro de Marabá, ele mostra o local exato onde estava naquele 29 de dezembro. 'Isto aqui ficou preto de soldados', lembra, na cabeceira da ponte. Nascimento conta que Alzira - casada com Luizão, um dos líderes do garimpeiros - sugeriu: 'Vamos cantar o Hino Nacional que eles não vão mexer com a gente'.

Mas, segundo ele, não teve cantoria de hino. Os policiais rodearam. 'Um policial à paisana, o Sebastião, filho de Cristino Araújo, que eu conhecia desde menino, me alertou: 'Olha, sai daí porque o negócio vai esquentar.' Só deu tempo de eu correr... e eles correram de lá e de cá da ponte', diz Nascimento. 'Jogaram gás de pimenta. Aí a gente ficou tudo de olho vermelho. Vi muitos caídos. Passei por cima dos corpos, não dava para ver de quem era, se estavam vivos ou mortos, os meus olhos ardiam. Aí os policiais tomaram a ponte e não deu para ver quem lá ficou ou se jogou.'

Os garimpeiros haviam deixado Serra Pelada na madrugada do dia anterior. Queriam o rebaixamento da cava do garimpo. Após percorrerem de ônibus e caminhões 160 quilômetros, eles interditaram a ponte sobre o Tocantins, trecho da PA-150 - a mesma estrada onde ocorreu mais tarde o massacre de Eldorado do Carajás. Na serra, sob o comando de outro líder, Victor Hugo Rosa, permaneceram dez mil 'formigas' (garimpeiros) em assembleia, acompanhando os passos dos colegas e recolhendo comida para os revoltosos.

Bloqueio. Na tarde do dia 29, Victor Hugo soube por telefone que o governador Hélio Gueiros havia dado ordem para a PM desobstruir a ponte. Passou a informação para Jane Resende - primeira líder feminina de um garimpo -, que comandava o bloqueio da ponte.

Os manifestantes colocaram uma carcaça de caminhonete e um monte de britas nos trilhos da ponte. Às 19 horas do dia 29 de dezembro, policiais avançaram pelas duas pontas da ponte, atirando na multidão. O governo informou que duas pessoas morreram. O número pode ter passado de dez.

A revolta começou no ano anterior, quando o garimpeiro João Edson Borges foi espancado e morto por um policial. Em reação, um policial foi morto e a PM acabou expulsa de Serra Pelada. Dali em diante, os garimpeiros receberam ameaças de vingança.

Por volta de 19 horas, o tenente-coronel Reinaldo Pessoa, do 4.º Batalhão da PM de Marabá, ordenou que a tropa de 500 homens avançasse. Os policiais cercaram os manifestantes. Das duas cabeceiras da ponte, os policiais atiraram durante 15 minutos com metralhadoras e fuzis calibre .765. Muitos garimpeiros se jogaram do vão de 76 metros. Uma mulher grávida morreu. O número total de mortos iria variar de acordo com a fonte. Nas contas do governador, três pessoas morreram. Na contabilidade do movimento, mais de 70. O número de mortes chegou a dez, segundo testemunhas.

'Turba envenenada'. À época, Hélio Gueiros disse que, como Jesus Cristo, estava sendo injustiçado por uma 'turba envenenada e ensandecida'. O tenente-coronel Pessoa lamentou as mortes. Depois de dizer que sentia pelas 'duas mortes', ressaltou que apenas recebeu uma 'missão' para desobstruir a ponte. Um relatório escrito pelo delegado da Polícia Federal Wilson Perpétuo, guardado na Casa de Cultura de Marabá, cita 3 mortos e 73 desaparecidos num primeiro momento. O documento foi dirigido ao diretor-geral da PF, Romeu Tuma. 'Foi um verdadeiro massacre', escreveu o delegado.

Um garimpeiro de prenome Francisco, que disse ter visto oito cadáveres, foi assassinado a pauladas por um grupo desconhecido, no centro de Marabá, um dia depois de dar entrevista à TV Liberal. A morte de Francisco amedrontou outras testemunhas do conflito. Era o início de um silêncio que já dura mais de 20 anos. Até hoje, poucos comentam sobre a tragédia.

Folhear a carteira de trabalho de Luiz Pereira do Nascimento, piauiense de Floriano, filho de Terto Pereira do Nascimento e Raimunda Maria Pereira, é ler uma síntese de capítulos da história recente do Brasil, em especial da ocupação e do desenvolvimento da Amazônia.

De 12 de julho a 14 de agosto de 1972, ele foi operador de máquinas da Construtora Tratex, que pavimentava um trecho da Belém-Brasília. De lá para cá, Luiz esteve em uma série de canteiros de obras da Mendes Júnior, da Camargo Corrêa, da Paranapanema, Queiroz Galvão, da Rabello, Estalon, Ivai, Construtora Brasil e outras empreiteiras. Ajudou a construir a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, a Transamazônica, a Perimetral Norte, o Aeroporto de Marabá e a estrada de ferro de Carajás.

Nos anos 1980, há alguns períodos que não foram registrados em sua carteira de trabalho. São justamente os meses em que esteve no garimpo de Serra Pelada. Foi lá que Nascimento e outros garimpeiros que estavam na ponte aprenderam a cantar o Hino Nacional. 'Lá, todo dia, na Serra, a gente era obrigado a cantar o hino, e por isso aprendi', conta. Ele guarda ódio do governador Hélio Gueiros. 'Esse foi cruel.'

Repressão à guerrilha. O agricultor Joel Soares de Almeida, 49 anos, é outro sobrevivente do massacre da ponte. A trajetória da família dele ajuda a entender as causas de mais essa revolta popular desconhecida. No começo dos anos 1970, o pai dele, Paulo Ribeiro de Almeida, decidiu se mudar com a mulher e os filhos para Paraíso do Norte, hoje Paraíso do Tocantins. Depois, a família seguiu para Santana do Araguaia. A ideia era chegar a Tucuruí, onde o governo construía a represa. Mas, em Marabá, em meados de 1974, época do auge da repressão à guerrilha do Araguaia, Paulo Roberto viu tantos policiais e soldados do Exército nas estradas que decidiu não seguir viagem. 'Como estava com 12 filhos pequenos numa D-20, papai ficou com medo e resolveu ficar', relata Joel.

Em Marabá, os filhos de Paulo Roberto fizeram amizade com Valbi Ferreira Camargo, filho do fazendeiro Genésio Ferreira. Anos depois, em 1980, Genésio encontrou ouro numa fazenda que comprara, a Três Barras. Era o começo da corrida do ouro de Serra Pelada.

Paulo Roberto e os filhos - José, Jerônimo, Josué, Joel e Raimundo - foram para o garimpo. Ocuparam 41 barrancos de exploração de ouro. O que tiraram de ouro investiram em carros e equipamentos. O ouro foi se tornando mais raro nos barrancos. A série de avalanches de terra e soterramento de garimpeiros foi o argumento que o governo, pressionado pelos diretores da então estatal Vale do Rio Doce, usou para fechar a mina em 1984 e 1987. 'A guerra foi porque colocamos tudo lá e não podíamos perder', diz Joel. 'A gente não podia perder o suor que colocou lá dentro.'

Joel afirma que os garimpeiros não estavam armados. 'Isso que fizeram ninguém entendeu', diz. 'Talvez porque o governo estava mesmo com muita raiva do pessoal', completa. Diz se lembrar de muitos se jogarem da ponte. 'Era verão, o rio não estava cheio. Tinha muita pedra e não era de dia', relembra.

Depois do massacre, Joel e os irmãos foram para o distrito de Novo Progresso, município de Itupiranga, onde passaram a trabalhar em lavoura. Em uma pequena terra comprada pela família, ele e os irmãos Jerônimo e Josué plantam milho, arroz, mandioca e abóbora.

No ano passado, Joel conseguiu um empréstimo de R$ 28 mil do Pronaf para comprar bois e construir um curral e uma cerca. O filho de Joel, Gabriel, de 7 anos, começou a estudar este ano numa escola do município.

Em Itupiranga, o único lazer da família é a igreja evangélica. Joel e a mulher Loide, 35 anos, frequentam o templo nas noites de segunda, quarta e sexta-feira. Também participa de ensaios no sábado e dá aula religiosa nas manhãs de domingo.

Há quatro anos chegou a energia elétrica. Um ano depois, a família se sentiu menos isolada com a compra de uma antena parabólica. O sinal vem de São Paulo, Rio e Brasília. 'Não tem canal do Pará. Eu vejo mais o Kassab (prefeito de São Paulo) na TV do que o prefeito de Itupiranga, o Benjamim Tasca', diz Joel.