A indústria japonesa de games está em crise. Foi o que Keiji Inafune, chefe de produção da Capcom, afirmou em entrevista no Tokyo Games Show de 2010. Um dos nomes mais respeitados na área, Inafune, 45 anos, trabalhou como designer gráfico em games como Street Fighter e Mega Man antes de produzir o jogo de aventura Onimusha e o terror de Dead Rising. Mais recentemente, ele vem pedindo mudanças no mercado japonês e que os desenvolvedores locais pensem de forma mais global.
Você já vem criticando a indústria japonesa há algum tempo. Notou algum progresso desde então?
Eu olho em volta e todos estão lançando games horríveis. O Japão está pelo menos cinco anos atrás de todo o mundo. É como se estivéssemos produzindo games para a geração anterior de consoles. A Capcom mal se mantém de pé. As ideias, a jogabilidade, o design ? não há diversidade e nem originalidade.
Por que você acha que o Japão está tão atrasado?
Muitos designers descobrem um gênero que funciona com eles e se apegam nele. Simplesmente apostam sempre na mesma fórmula. Isso não funciona mais. Há que se trabalhar nos gráficos, na qualidade da imagem ? é impossível competir sem isso.
Há problemas também no lado mais empresarial, pois os investimentos secaram. Você precisa estar preparado para investir US$ 4 bilhões ou mais em um game, gastando mais US$ 2 bilhões para promovê-lo. Mas as companhias japonesas não conseguem fazer isso. É um círculo vicioso: você não investe e por isso não consegue vender games. Sem vendê-los, não investe.
Você vem tentando lançar seus games no Ocidente, mas isso de vez em quando se prova um desafio. Pode me dizer o que aconteceu no caso de Shadow of Rome?
Foi uma falha. Tentamos ocidentalizar esse jogo de uma forma superficial. Simplesmente pensamos que se fizéssemos isso, as pessoas iriam gostar mais. Mas percebemos que estávamos sendo levianos: era como mudar todos os olhos para a cor azul e trocar os cabelos. Precisávamos ter sido mais profundos, fazendo um estudo do Ocidente. Mas agora quero achar ideias que sejam globais. Não acho que os games japoneses possam se tornar populares mundialmente. É como sushi. Todos amam sushi no Ocidente, mas ele é feito uma maneira diferente no Japão.
O que você fez com Resident Evil? Esse vendeu muito. Já Monster Hunter foi um fracasso.
Biohazard/Residente Evil foi um sucesso. Fizemos um personagem principal que era norte-americana e falava inglês. Mas sempre existe o risco de fazermos um game que não exploda nem aqui e nem lá. Monster Hunter é essencialmente japonês, e se mudássemos algo ele não mudaria mais por lá.
O ideal é separar o mercado japonês e o mundial?
Queremos fazer games que vendeam globalmente, mas alguns deles só fazem sentido mesmo no Japão. Está tudo ok, desde que tenhamos algum lucro com isso. O Japão tem apenas 8% do mercado de games (excluindo a Nintendo), por isso ganhar dinheiro está cada vez mais difícil.
E quanto a comprar produtoras de fora e contratar desenvolvedores estrangeiros?
É só um começo. É como um casamento. A Capcom comprou a Blue Castle e disse que que estava ?casando?, mas isso é um longo processo. Não dá para comprar uma empresa e exigir que eles comecem a produzir ótimos games imediatamente.
Qual estratégia você aplicaria para conquistar o mercado ocidental?
Não para bater os Estados Unidos, vamos assumir. É como jogar basquete com eles. Um japonês de 1,80 não consegue bater um norte-americano de mais de 2 metros. Temos que pensar em uma estratégia alternativa.
Você consegue fazer o que quiser na Capcom?
Gostaria de pensar que sim, mas está cada vez mais complicado. Eu não compartilho a mesma visão de negócios da companhia. Quero fazer games internacionais, mas a Capcom não leva a globalização a sério.
O que precisa mudar?
A empresa precisa mudar o seu sistema de compensação. Os executivos acham que desenvolvedores são estúpidos e não entendem de negócios, por isso não posso estar no quadro que toma as decisões. É a diferença da Capcom e da Nintendo, que tem 80% de diretores que também são desenvolvedores. Na Capcom, zero. Quando ela mudar, acredito que a indústria japonesa mudará junto.
Para onde mais irá essa globalização?
É muito tarde para tomar o mercado norte-americano agora, isso levaria anos. O próximo grande alvo é a China.
Você recebe críticas por falar tanto da indústria japonesa?
Acredito que os games japoneses estão mortos, mas quando digo isso sou chamado de traidor. Mas eu amo o Japão, quero salvá-lo.
/HIROKO TABUCHI (THE NEW YORK TIMES)



















