O Brasil já registra uma taxa de expansão de investimentos vindos do exterior superior à de Pequim e, pela primeira vez, está entre o dez maiores destinos de investimentos no mundo, superando tradicionais economias como Japão e Itália e quase se igualando à Alemanha. Os dados, divulgados pela Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad), confirmam uma transformação profunda na economia mundial. Pela primeira vez na história, os países emergentes receberam mais investimentos que os países ricos, que ainda vivem as incertezas da recuperação, alta taxa de desemprego e turbulências no mercado financeiro.

Em expansão, a economia brasileira seguiu o mesmo caminho de outros emergentes. Estrangeiros aumentaram as compras de empresas brasileiras entre 2009 e 2010, deixando no País um volume superior de recursos ao que gastaram na China e duas vezes superior às aquisições mundiais na França. Esses dados foram amplamente inflacionados pela transação da Telefónica no mercado nacional.

No geral, os investimentos no mundo estiveram estagnados em 2010, somando apenas 0,7% a mais do que em 2009, o ano da crise. No ano passado, os investimentos mundiais somaram US$ 1,12 trilhão, contra US$ 1,11 trilhão em 2009. Mas essa estagnação ocorreu principalmente por conta dos países ricos, que registraram uma queda de 7% no fluxo de investimentos em 2010. A Europa registrou uma queda de 22% nos investimentos recebidos, contra uma contração de 83% no Japão.

Países como a Irlanda sofreram uma queda de 66% no fluxo de investimentos, contra 20% na Dinamarca, 55% em Luxemburgo e 38% de queda na Grécia. Nos Estados Unidos, o país recebeu 43% a mais de investimentos em 2010, comparado a 2009. Mas isso significou apenas uma recuperação modesta em relação a dois anos de quedas profundas. A economia americana, apesar de receber investimentos, terminou 2010 com um volume equivalente apenas a metade do que recebia há três anos.

Emergentes

A grande transformação, porém, ocorreu nos países emergentes. Juntas, essas economias receberam em 2010 mais de 53% de tudo que foi investido no mundo e tiveram uma expansão de 10%. 'Essa é a primeira vez na história que isso ocorre', afirmou James Zhan, diretor do Departamento de Investimentos da Unctad.

Em 2010, os países ricos receberam US$ 527 bilhões em investimentos estrangeiros. Já os emergentes e economias em transição receberam US$ 596 bilhões. O Brasil somou US$ 30,2 bilhões em 2010, 16,3% acima dos níveis de 2009 e com uma expansão bem superior aos 9,7% de crescimento dos países emergentes. O Brasil também registrou uma expansão de investimentos bem acima dos 6,3% registrados pela China e mesmo superior ao total das economias asiáticas, em 10%.

Para Zhan, dois fatores contribuíram para que o Brasil tivesse um bom desempenho. O primeiro deles foi a busca de empresas estrangeiras por atuar no mercado brasileiro e tirar proveito dos benefícios da expansão da economia. Empresas de alimentos e bebidas têm sido algumas das maiores promotoras de investimentos, além do setor de serviços.

Um dos sinais desse interesse internacional pelo Brasil pode ser visto diante do desembarque massivo de empresas em busca não apenas de abrir sua produção no País, mas de comprar companhias locais já instaladas. Em 2009, o Brasil havia sofrido um 'desinvestimento' de US$ 1,4 bilhão, com estrangeiros vendendo empresas locais. Em 2010, multinacionais deixaram no País US$ 9,4 bilhões. A Telefónica e sua compra no mercado brasileiro foi a grande responsável pelo salto. Em termos absolutos, o Brasil somou recursos em aquisições superiores aos da China e da maioria dos países asiáticos.

Outro fator é a busca por recursos naturais no Brasil, com a exploração de petróleo, mas também a alta nos preços de minérios e mesmo de terras agrícolas. Nesse caso, não são apenas empresas europeias e americanas que buscam ganhar espaço. A chegada de companhias chinesas tem sido um fator constante na economia nacional.

Investimento total

Em termos totais de investimentos, o Brasil aparece na décima colocação mundial em 2010, três posições acima de sua classificação em 2009. A liderança é ainda dos Estados Unidos, que receberam US$ 186,1 bilhões no ano passado. Em segundo lugar vem a China, com US$ 101 bilhões em investimentos. 'Pela primeira vez, a China passa a marca dos US$ 100 bilhões', afirmou Zhan.

Em terceiro vem Hong Kong, com US$ 62 bilhões. Juntos, China e Hong Kong quase se igualariam ao volume de investimentos recebido nos Estados Unidos. A quarta posição é da França, com US$ 57 bilhões recebidos, US$ 2 bilhões inferior a 2009. Bélgica, Rússia, Cingapura e Alemanha completam o ranking.

O Brasil, porém, subiu da 13ª posição para a 10ª, superando a Índia, país que vem declarando ser o novo polo de crescimento mundial. O Brasil também superou a Itália, que registrou uma queda de investimentos de um terço em apenas um ano. Holanda e Luxemburgo também foram superados pelo Brasil, que há quatro anos lidera o volume de investimentos na América Latina, superando o México.

A América Latina também se beneficiou da busca por recursos naturais. A região registrou uma expansão de 21,1% na chegada de investimentos, para um total de US$ 141,1 bilhões. Estrangeiros ainda usaram US$ 32 bilhões para comprar empresas na região, uma alta em comparação aos US$ 4,4 bilhões de desinvestimentos em 2009.

Com o cobre, o Chile viu uma expansão de 18% nos investimentos no País, contra 44% no Peru. O México também se beneficiou da volta do crescimento nos Estados Unidos e viu investimentos em alta de 52%. Os investimentos para a Argentina também subiram. Mas o país hoje despencou no ranking e recebe menos recursos na região que Peru, Chile, Colômbia e México.