Está faltando empregada doméstica qualificada no mercado e os salários dessas profissionais dispararam. Em 12 meses até agosto houve um aumento real de 9,1% nos rendimentos. Com a retomada do crescimento econômico e a abertura de vagas na indústria, no comércio e no setor de serviços, que oferecem melhor remuneração e benefícios, o emprego doméstico encolheu, após ter crescido em 2009 por causa da crise.

Em agosto, havia 1,556 milhão de pessoas ocupadas em serviços domésticos nas seis regiões metropolitanas do País pesquisadas. É um contingente 7,1% menor em relação a igual mês de 2009, segundo a última Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desde janeiro, o total de empregados domésticos diminui a cada mês.

'A queda no emprego doméstico é explicada pelo fim da crise. Ninguém nasce com talento para ser doméstica. É uma questão de contingência', afirma o gerente da PME, Cimar Azeredo.

Enquanto o emprego doméstico encolheu, o número de pessoas ocupadas nos serviços aumentou 9,4% entre agosto de 2009 e 2010, na indústria a alta foi de 2,9%, nos serviços terceirizados de 2% e no comércio, 1,1%.

'Empregada para dormir é artigo em extinção', afirma Eliana Oliveira, supervisora de seleção da agência de empregos Prendas Domésticas. Ela conta que a empresa tem 50 vagas abertas. Segundo Maria Ives Moreira, sócia-proprietária da Resilar Empregos Domésticos, a fase atual é uma das mais difíceis para recrutar profissionais.

Eliana pondera que a dificuldade de preencher vagas para dormir no serviço já vem de algum tempo, mas se torna maior em períodos de oferta escassa de mão de obra como o atual.

Migração. Também o tradicional fluxo de trabalhadoras domésticas do Nordeste para o Sudeste acabou, diz Eliana. Azeredo, do IBGE, observa que os programas sociais deram mais poder de barganha para essas profissionais negociarem condições de trabalho. Também interrompeu os fluxos migratórios.

'Hoje a demanda por domésticas é boa e elas estão mais conscientes de seus direitos', afirma a vice-presidente da Federação das Empregadas Domésticas do Estado de São Paulo e presidente do Sindoméstica da Grande São Paulo, Eliana Menezes.

Ela diz que a falta de mão de obra não é fruto apenas da escassez de profissionais, mas ressalta que muitos empregadores insistem em oferecer condições que ferem os direitos conquistados. Por isso, faltam profissionais. 'Eles oferecem qualquer coisa de salário e não querem registrar. Para não pagar condução, exigem que a trabalhadora durma no serviço, com uma jornada das 6h às 23h', conta ela.

Outro fator que agrava a oferta de domésticas, observa a presidente do Sindoméstica, é que as mulheres mais novas, que têm entre 20 e 25 anos de idade, não querem mais ingressar na profissão. 'As mais jovens querem trabalhar no comércio e nos serviços, que oferecem mais direitos, têm uma jornada de trabalho mais certa e dão a possibilidade de aumentar a escolaridade', observa a economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Patrícia Lino Costa.

Salários. Só a maior procura por esse tipo de trabalhador, sem a mobilização da categoria, ampliou os salários das empregadas domésticas. Em agosto deste ano, o salário médio real de uma empregada doméstica estava em R$ 567,60 nas seis regiões metropolitanas (São Paulo, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre), segundo o IBGE.

Descontada a inflação, o rendimento das domésticas cresceu 9,1% em 12 meses até agosto de 2010. O aumento real das domésticas supera de longe o reajuste real de 6,25% obtido no mês passado pelos metalúrgicos do Estado de São Paulo, uma categoria com forte poder de mobilização.