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Atualizado: 08/01/2014 21:15 | Por Maria Eugênia de Menezes, estadao.com.br

Dentro dos muros da escola

'Conselho de Classe', novo espetáculo da Cia. dos Atores, discute problemática da educação no País


Dentro dos muros da escola

"Cena do espetáculo 'Conselho de Classe'"

Talvez não dê para falar em transformação, mas transição é uma palavra à qual as diretoras Suzana Ribeiro e Bel Garcia recorrem diversas vezes para falar do atual momento da Cia. dos Atores. O afamado grupo carioca, chega hoje ao Sesc Belenzinho com Conselho de Classe, espetáculo que surgiu com a missão de dar um ponto final à trajetória de 25 anos da trupe e, curiosamente, acabou lhe abrindo outros caminhos e garantindo-lhe uma sobrevida. "Estamos buscando um outro modelo, mais leve, no qual a gente se abra mais, se misture mais", comenta Suzana.

Conselho de Classe amarra a tradição da Cia. dos Atores a artistas de uma nova geração. Ao elenco formado por César Augusto e Marcelo Olinto - que estavam na formação original do grupo, fundado em 1988 - unem-se Leonardo Netto, Paulo Verlings e Thierry Trémouroux, oriundos de outras companhias. Na autoria, o atual projeto também recebe um convidado considerável: Jô Bilac, jovem dramaturgo que tem marcado a cena nos últimos anos, acumulando prêmios e boas críticas.

Tantas novidades têm um propósito estético: deram origem a um espetáculo no qual a trupe pôde experimentar uma linguagem com a qual nunca teve muita familiaridade: o realismo. "Tínhamos essa vontade de trabalhar mais detidamente sobre o texto, de focar no trabalho de ator, na construção de cada personagem", comenta Bel Garcia.

Na peça, o grupo põe em discussão questões candentes da educação no País. Em um colégio público do centro do Rio, em pleno verão, alguns professores se reúnem para discutir os rumos da instituição. Antes que o próximo ano letivo se inicie, eles precisam dar conta dos últimos acontecimentos: estão todos ainda abalados por um ataque de violência de alguns alunos, que se rebelaram contra uma proibição e agrediram a então diretora - hospitalizada e afastada do cargo.

O encontro de docentes, porém, é interrompido pela chegada imprevista de um novo diretor, chamado para assumir interinamente a condução da escola e munido de conceitos e ideias que vão desestabilizar a ordem vigente.

É em meio a esse embate que Jô Bilac esmiúça a problemática do ensino. Com a consultoria pedagógica de Cleia Ferreira, ele destrincha temáticas de apelo mais universal. O ensino formal tornou-se desinteressante e, não raro, ineficiente, em muitos países. Os jovens têm outras fontes de informação, não mais aceitam a hierarquia a separar professores e alunos nem os antigos códigos de conduta. Nesse processo, questiona-se, por exemplo, que papel poderiam ocupar a arte ou o esporte.

Por sua vez, feridas que dizem respeito especificamente à situação brasileira também são abordadas. A ausência de qualquer estímulo à carreira do professor público é um desses fulcros insolúveis. Apenas para o Ministério da Educação, o orçamento aprovado em 2013 era de R$ 81,1 bilhões. Fica evidente, portanto, que o problema não está circunscrito à carência de recursos financeiros. Esbarra, essencialmente, na ausência de planejamento e na inabilidade dos gestores.

Relações de poder e a micropolítica que regem o ambiente escolar também são abordadas na trama. Os personagens encarnam tipos reconhecíveis: a professora mais experiente, que ouve as opiniões de todos, aquela que se vale da estrutura do colégio em benefício dos próprios negócios e interesses, a outra que defende a ordem acima de todas as coisas. "São figuras representativas, quase arquetípicas desse universo", pontua Suzana Ribeiro.

O realismo mencionado pelas diretoras não deve se esgotar no texto ou no estilo de representação dos atores. É também na encenação que tal ambição se coloca. Não há canções na trilha sonora. Discreta, a luz de Maneco Quinderé não vem para conferir aspecto "artístico" ao que acontece. "É antes um jogo de sombra e luz. Tentando trazer para a cena o aspecto mais real possível", considera Bel.

Para servir de cenário à reunião de professores, existe uma desolada quadra de esportes. Assinada por Aurora dos Campos, a cenografia concorre ao próximo Prêmio Shell de Teatro, assim como a direção e o autor. O período de ensaios e estreia da montagem no Rio foi marcado, coincidentemente, pelas manifestações que tomavam a cidade. Na época, professores também saíram às ruas para protestar e foram coibidos pela polícia.

"Mas não foi uma decisão oportunista", ressalva Suzana. "O texto já estava sendo escrito havia dois anos. E, mesmo sem querer, a peça acabava reverberando o que estava em pauta nas manifestações." O barulho dos helicópteros e das bombas de efeito moral são utilizados como sonoplastia que contamina o ambiente.

Apenas um elemento é convocado para servir de ruído a esse vínculo pretendido com o real, trazendo mais uma camada à apreensão da obra: para tratar de um mundo eminentemente feminino como o da educação, tomado por educadoras e pedagogas, o elenco escolhido é exclusivamente masculino: são cinco homens no palco. "Pode servir para relativizar a questão de gêneros, mas também abre a possibilidade de outras leituras do espectador", acredita Bel.

A óbvia conotação política do enredo não impede que os diálogos estejam contaminados pelo humor: traço comum tanto a Jô Bilac quanto à Cia. dos Atores. A plateia é instada a rir dos dilemas morais desses personagens. E a deixar-se conduzir por um jogo intrincado, em que ninguém está completamente certo ou errado.

Serviço:

'Conselho de Classe'

Sesc Belenzinho

Rua Padre Adelino, 1.000, tel. 2076-9700

5ª a sáb., 21h30; dom., 18h30.

R$ 5 a R$ 25. Até 16/2

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